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quarta-feira, 20 de julho de 2016

Diálogos com o Silêncio

Sempre que estou quase esquecendo, lembro.
Lhe procuro de novo.
Trocamos palavras e tudo reascende muito rápido, toma força, toma corpo e é como se fosse ontem.

Você é exatamente a mesma pessoa... E embora o tempo, cruelmente irônico por natureza, só me deixasse lembrar de tudo que me leva recorrentemente a você, há mais.
Há muito mais... Há os menos.

Lhe procuro porque sou viciada na dor e no seu silêncio.
Lhe procuro porque sou viciada no seu abandono.
Lhe procuro como quem corta a pele compulsivamente até sangrar... me machucando intencionalmente, patologicamente... para fugir da realidade de não sentir.

A dor me difere dos que nada mais sentem... é o meu medo da morte quem diz.

Busco sua imagem, escuto suas músicas, cheiro o seu perfume, associo palavras e situações a você... e assim coleciono feridas na minha pele que paga o preço de viver sem a sua.

E pensar que você não é nada além de um punhado de orgasmos, cheiros, saliva... 
E pensar que eu temia sua partida desde o instante de sua chegada...
E pensar que eu sempre soube... Sempre sinceramente soube que você não tinha espaço em nenhum lugar da minha vida, só dentro de mim... Fisicamente dentro de mim.

Me arranho até que pontinhos minúsculos de sangue minem das fibras rompidas da minha pele.
Aprofundo o corte até que se transforme em um fino fio quente e vermelho.
Passaria o dia esperando meu corpo expelir você nessa sangria.

Decido que basta... 

Mas basta eu pensar em você e começa tudo outra vez.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Cena 3 - Hábitos Alimentares




A cena se passa em um bar.

PERSONAGENS:
LIVIA
FÁTIMA
FELIPE
GARÇOM (sem falas)

Algumas mesas e cadeiras vazias, balcão, GARÇOM atrás do balcão.
LÍVIA sentada digita em seu smartphone.

Sobre a mesa de LIVIA, um balde com duas garrafas de cerveja e um copo.

FÁTIMA entra em cena.




LIVIA
Oi! Você veio!

FATIMA
Eu falei que vinha!
Nossa! Você está ótima!

LIVIA
Foram vinte quilos!

FATIMA
Tudo isso? Você não parecia ter vinte quilos mais...

LIVIA
O que importa é: Pareço ter vinte quilos menos?

FATIMA
Boba! Boba e linda!
O que está bebendo?

LIVIA
Cerveja.

FATIMA
Te acompanho então.


Garçom vem até a mesa e deixa mais um copo.



LIVIA
E o que tem feito?

FATIMA
Aula! Me virando...

LIVIA
Do que?

FATIMA
Yoga. Palestras também. O que aparece!
Eu tenho um espaço, você sabia?

LIVIA
Soube! Na Vila Olímpia, não?
Só um minuto, chegou mensagem.
Filho da puta!

FATIMA
O que rola?

LIVIA
Eu não sei.
Monossilábico e desinteressado... Não era assim!

FATIMA
Dá um gelo.

LIVIA
Gelo... Só se for para um whisky com Rivotril! É mais eficiente!

FATIMA
Baixo astral!

LIVIA
Apaixonada... Tão rápido, tão por acaso, tão improvável!  
Mas me fala de você.

FATIMA
Desde que voltei da Índia levo uma vida mais leve...

LIVIA
Deixou de lado os prazeres da carne!!!

FATIMA
Só a carne mesmo! Os prazeres jamais!

LIVIA
Soja e sexo!

FATIMA
Sempre!

LIVIA
Espera aí... Ele respondeu.
Olha isso!!!
Eu não fui clara aqui?
Por que ele está fazendo isso comigo?

FATIMA
Não pede... Faz ele querer!

LIVIA
Como?
O que mais eu posso falar?

FATIMA
Provoca.

LIVIA
O que eu digo?

FATIMA
Que você está com uma amiga gata, tomando uma cerveja.
Escreve.

LIVIA
Estou com uma amiga gata, tomando uma cerveja...
Legal!
E agora?

FATIMA
Diz que você não tem certeza, mas que parece que ela está se insinuando para você!

LIVIA
Nossa!  Vai funcionar?
Ela está se insinuando para mim...
Ele não está mais monossilábico!!!
Está fazendo perguntas!

FATIMA
Escreve aí que eu disse que você é uma mulher linda, interessante, sensível e tem um cheiro delicioso... Que eu sou louca para provar o gosto que você tem... Desde que éramos duas adolescentes.

LIVIA
E agora?

FATIMA
Propõe um menáge...

LIVIA
Não.

FATIMA
Não?

LIVIA
Ele não te merece.

FATIMA
Ele não te merece.

LIVIA e FATIMA se beijam.

FELIPE chega no local.

LIVIA
Felipe!

FELIPE
Assim me chamo e você me chamou... Aqui estou.

LIVIA
Como se essa lógica funcionasse.
Fátima esse é Felipe.

FATIMA
Oi Felipe.

FELIPE
Posso me juntar a vocês?
O que estão bebendo?

FATIMA
Cerveja.

FELIPE
Cerveja então.


Garçom vem até a mesa e coloca mais um copo sobre ela.


LIVIA
Achei que não viesse.

FELIPE
Por que não viria?

LIVIA
Você não parecia querer vir.

FELIPE
Estou com fome. Vamos comer?

LIVIA
Fátima?

FATIMA
Acompanho vocês...

FELIPE
Filet Mignon?

FATIMA
Não como carne.

FELIPE
Restrições alimentares?

FATIMA
Por opção.

LIVIA
Soja! Ela come soja.
E faz sexo.

FELIPE
Soja?
E você Lívia? Soja?

LIVIA
Não me incomoda!

FELIPE
Eles não teriam soja no cardápio

LIVIA
Queijos... Todos comemos queijo.

FELIPE
Não é interessante como alguns alimentos tornam-se moda.
Soja, Linhaça, Chia...
Há um tempo, laranja era sinônimo de vitamina C, depois descobrimos que uma acerola equivale a 20 laranjas e a cada dia um alimento é condenando e outro é absolvido!
Qual o alimento condenado do momento, Fatima?

FATIMA
Carne de porco.

FELIPE
Eu gosto de carne.

FATIMA
Não gosto de porco.

LIVIA
Todos comemos queijo!

FELIPE
Não queria interrompe-las.
O que pretendiam?

LIVIA
Esperava por você.

FATIMA
Vou embora. Já é tarde.

FELIPE
É sim... É tarde.

LIVIA
Tarde demais.


FATIMA
Vou embora. (Para LIVIA)

FELIPE
Vai? (Para FATIMA)

LIVIA
Fica... (Para FATIMA)

FATIMA
Vou (Para FELIPE)

FELIPE
Fica? (Para LIVIA)

LIVIA
Fica? (Para FELIPE)

FATIMA
Fico.
Silêncio.

LIVIA, FATIMA E FELIPE se olham.

Os três se levantam ao mesmo tempo e deixam o bar/a cena, sem despedidas.

Final da cena.






 
 

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Um beijo por seus pensamentos.



Ela rói as unhas.

Encolhe as pernas sobre o sofá da sala.

A televisão está ligada em um canal sobre a programação.

O som toca Bob Dylan. A música fala algo assim: “se você a encontrar, diga olá por mim”.

 No celular, está aberto um aplicativo de fotos.

No notebook, sobre as almofadas, as tarefas ainda não finalizadas e os prazos estourados dos projetos que precisa entregar aguardam sua atenção.

No chão, no tapete, dois livros: Um começado e lido até a metade e um ainda intocado.

Entre um copo de chá e outro, que toma para enganar a fome depois da estarrecedora visão de seu peso acrescido de três quilos, olha para seus quadros na parede, sem pensar em nada... Até que pensa: 




Eu sei que você me vê...

Diz se você gosta.

Eu sei que você me lê e relê.

Eu lhe encanto, lhe assusto ou lhe espanto?

Me conta sua versão.

Eu sei, que em algum momento da sua semana, há espaço para mim nos seus pensamentos...

Um beijo por eles!

Um beijo curioso... Como sou.

Me diz... Com tanto acaso, você trataria com descaso o tempo que tem em suas mãos?

Hoje, eu não lhe quero pra sempre.

Hoje, eu lhe quero em breve e breve, simplesmente porque gosto de cada detalhe que o canto do meu olho capta... Que o canto da foto mostra.

Não lhe quero para mim... Só lhe quero.

E por que não?

O que é melhor?

A lembrança ou a imaginação?

Penso que dia desses recuei... E hoje é tão claro que todos os meus arrependimentos estão relacionados ao que não fiz.

Lembrança ou imaginação?

Um beijo... Fique com seus pensamentos se quiser.

Um beijo , longo, de corpo inteiro... E só.




Deu mais um gole no chá e se deu conta de tudo que esperava para ser feito ao seu redor.

Optou por uma folha de papel e caneta.

Escreveu todas as palavras que pensou... E deixou tudo para amanhã.




E eu que ofereço beijos pelos seus... Hoje, lhe entrego de graça os meus.


domingo, 30 de novembro de 2014

Bicho

Bicho
Às vezes eu sou um bicho
Desses de garras, dentes e instinto.
É só o que eu quero que importa
O que inexplicavelmente quero.
É só a fome e a sobrevivência
Não tenho nome.


Fúria
Às vezes eu sou só fúria...
Renego o amor, renego o medo,
Renego tudo que possa diminuir meu tamanho, minha força.
Às vezes eu sou enorme, não caibo em mim.


Desejo
Às vezes sou só desejo e por ele me exponho ao risco.
Sou incongruente...
Minhas escolhas são feitas com o corpo.
Nem cabeça, nem coração:
Só o corpo.


Vaidade
Às vezes, muitas vezes, sou vaidade!
Entrego-me a ela.
Gosto dos olhos que me olham...
Gosto do corpo que me quer...
Gosto, simplesmente gosto... Por vaidade
Vaidade impura.


Silêncio
Eu nunca sou silêncio.
Falo o que há de pior,
Falo o impensável
Só para que o silêncio não me rasgue ao meio.
O silêncio perfura meus tímpanos com a verdade.


Às vezes, só às vezes, me canso.
Às vezes, só às vezes, minto.
Às vezes, poucas vezes, sinto culpa.
Às vezes sinto...
Sinto muito...
Sinto demais.


Às vezes, sou outra coisa.
Totalmente outra coisa...
E de repente, não sei o que fazer.
Porque de repente, tudo que quero me torna frágil...
E por isso tenho medo.


Às vezes sou mãe, sou amiga, sou filha, sou irmã, sou escritora, sou analista de recursos humanos, sou mulher, sou mortal...


Só me sinto segura quando sou bicho.


Às vezes... Boa parte das vezes, não sou bicho
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segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Dançando no Escuro

Fechei os olhos para vê-lo.

Sentia saudades sem dor.

Fazia tempo que sentir-me apaixonada não doía... Não me lembro a última vez.

É quase uma comoção... Um sorriso, uma agitação infantil!

Reparo-me com doçura... Também fazia tempo desde a última vez que me olhei sem auditar meus passos, meus atos, meus erros.

Dessa vez, não.

Gosto de você e pronto.

Tenho, tenho medo sim... Mas é menor que o meu bem querer.

Tenho, tenho ansiedade sim... Mas ela não me queima.

A única coisa que arde em mim é o desejo, porque para mim não existe alma sem corpo.

Ninguém toca minha alma sem passar por ele... E eu não sinto mais vergonha disso.

Não quero ser outra... Sou assim.

Demorei tanto tempo para descobrir em mim beleza... Não me interessa abrir mão dela.

Quero assim: Podendo ser, podendo falar, podendo esperar, podendo olhá-lo com a cara mais suja e amá-lo com o coração mais limpo.

Amá-lo... Você não gostaria dessa palavra. Acho que não gosta de nomes.

É que eu gosto. Quando as coisas não tem nome elas ficam meio assim... Indigentes.

O som do meu, falado inteiro, me estremece: Daniela.

Porque meu nome sou eu em sua boca... 
Meu nome, meu corpo e meu coração entre seus dentes.

Morde devagar... Meu coração, meu corpo não.

Digitei a mensagem... Por prudência apagaria cada uma das oito letras da palavra saudades...

Pressionei enviar ao invés disso.
A vontade de estar em seu abraço novamente é menor que o medo de não estar.

Se não puder dizer o que sinto, para que sentir?

Se eu tiver que cercear meu querer, para que querer?

Para que transformar o medo do nada, em algo maior do que o que existe aqui e agora?

E o que tenho além do nada?

Meu pensamento cheio de você.

Eu quero entender o que lhe emociona, o que lhe aborrece... O que é isso tão exato que lhe confunde, que lhe preserva, que lhe reserva de mim... Quero seu sim.

Você é tão claro que me cega... E logo eu, que até durmo de luz acesa, caminho sem diminuir o passo, sem tatear... Danço no escuro buscando apenas um eco para minha voz:

Vem!

Vem, vem, vem...

Estou aqui pra você!

Você, você, você...


Dança comigo!

Comigo, comigo, comigo...