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segunda-feira, 31 de março de 2014

As Horas


As horas... Muitas e muitas se passaram e ela teoriza:


Que fraude... Atribuem às horas um poder medicinal que elas não têm...
Horas fazem dias, meses, anos... Mas não curam.
Avisa a Anvisa que é propaganda enganosa... Placebo!
Segui em frente, acreditando que essa pílula de farinha removeria essa dor!
Se soubesse...


Pensou que se soubesse ficava parada. Chafurdava na lama até afogar-se nela...
Para morrer com a memória fresca e nítida... Para não ter que esquecer.


Não me lembro bem de seu rosto e sua voz sumiu completamente dos registros do meu cérebro: Efeito colateral de um remédio que não funciona -
Apaga-se a voz... Apagam-se os traços... Mas ISSO aqui dentro não...
Não há nada verdadeiramente eficaz.



Silenciou e resolveu arrumar seus CDs. Chorou um pouco parada diante da estante... Empurrou com o dedo o bibelô da prateleira mais alta. Assistiu a queda e assustou-se com o corpo de porcelana quebrando-se no chão.


Quanta coragem! Mas olha você agora... Em pedaços!


Sentou-se ao lado dos cacos... Observou-os por um tempo. Esticou o braço e pegou um tubo de cola, mas nada fez com ele.



Está bem... Você está certo. Você tem mais dignidade assim, em pedaços!
Não há conserto... Você seria apenas um bibelô feio e remendado.


Recolheu-os e colocou em uma caixinha... Fechou-a:


Ai.



Curvou-se com um dor física no peito. Chegou a perder o ar...



Ai... Isso de fato doeu...
E o que foi isso que doeu entre tantas coisas?
Meu cérebro bombeia meu corpo com tantas sensações de morte que um dia ele acaba acreditando.
Saudades desse homem maldito que foi meu por tão pouco... Por tão poucas razões, por tão pouco tempo...
Houve um dia que torturada em silêncio senti o volume dele dentro de mim...
Parada na sala, assistindo TV, o senti entrando em mim... Da mesma forma de outrora.
Aquela pele úmida filha da puta, aquele peso infernal, minhas pernas abertas de vagabunda entregue... Vem!
Não, ele não vinha!
Devia estar essa hora comendo a mulher que merecia ter nas mãos os sonhos que tive! Uma mulher mais... Adequada!!!
Que Deus me reserve a ironia de ser ela a mulher da vida dele!!
Que Deus me ajude a vê-lo cansar-se, esfriar e repudiar o corpo e a presença dessa mulher!
Deus não me ajudaria com isso...
Que o diabo me ajude então.



Silenciou em censura.
Em seguida deu de ombros.



Por que só eu tenho que sofrer?



Sentiu fome.
Levantou-se do chão ainda com a caixinha abraçada contra o peito.
Foi até a geladeira... Não havia lá nada capaz de matar sua fome.
Abriu uma garrafa de vinho, bebeu-o todo em taças.
Deitou-se no sofá e agradeceu pela péssima memória que tinha.


Tivesse agora o maldito número de seu celular ligaria em prantos exigindo todos os porquês que me atormentam...
Tiraria seu sossego porque o meu foi-se há tempos...
Por que me quis?
Por que não quis?
Foi meu corpo? Meu gosto? Meu cheiro?
Foi minha ansiedade? Foram as minhas vontades?
Foi a minha carência? Foi a minha demência?
Foi o que faltou? Foi o que sobrou?
Foram as circunstâncias?
Fui eu... Ou foi você?

3372...
3271...
3342...

Merda... Olha o tempo aí mostrando que serve para alguma coisa.



Dormiu e pronto.
Antes pediu a Deus um sonho bom... E que ela o lembrasse ao acordar.
Amanhã o dia amanheceria e tudo estaria igual.
Tudo no lugar.


Exceto pelo bibelô quebrado e guardado dentro da caixa.



NOTA:
Texto de 2009 reeditado.
Eu... Como não tenho escolha, não escolho.
Espero o milagre do tempo acabar de vez com tudo isso.
Mas não acredito em milagres.

domingo, 30 de março de 2014

O Poder da Imagem



Fotos... Adoro fotos...Sempre fotografei tudo.

Hoje, mais que isso... Fotografo, edito, publico, compartilho...
E curto...

Curto as fotos dos amigos que aparecem na linha do tempo do meu Facebook...

Foto é uma palavra de origem grega que significa "desenhar com luz"... Tão bonito isso, né?

Retirei do site de uma amiga o trecho abaixo:
“Mais do que esse significado, representa a necessidade de prolongar um contato, um acontecimento, é a necessidade de documentar um momento.
A fotografia captura um instante, põe em evidência, registra, guarda momentos valiosos de nossas vidas.
É um presente, afinal de contas, se premia a memória, recordando!!”


Seguindo a seqüência das citações... Lembro de um trecho da música da Madonna (Like a Prayer) que diz: You want what you see (Você quer aquilo que você vê)...


Pronto!! Cheguei ao ponto:


Minha alma perturbada se descontrola diante da imagem... Teu rosto, maldito rosto... Teu gosto... Essa lembrança estranha de felicidade me faz salivar... Que fome de felicidade!

Drogadição... Um toxicômaco diante de um castelo de pó...
Abstêmia eu conheço a dor...
Dá-me mais...
Mais uma vez, por favor, mais uma vez...
Eu prometo que será a última... E depois, nunca mais!
Dá-me!
Corre em minhas veias pela última vez, por piedade... E mata-me.
Convulsiona meu corpo e mata-me de overdose de ti.
Abstêmia eu conheço a dor e não a suporto mais...
Dá-me mais.

"É um presente, afinal de contas, se premia a memória, recordando!!”
Presente...
Não quero esquecer
Presente...
Não consigo esquecer
Presente...
Não posso lembrar
Presente...
Não quero viver... Sem ti, aqui... Presente.
 
Dizem por aí: "Uma imagem vale mais do que mil palavras"...
Mil palavras não diriam
O quanto sua foto cala
E consente o cessar da minha paz:
Esse ponto final cravado em mim.
Dá-me mais depois do fim...
 
NOTA:
Texto de 2009 reeditado.
Fotos:
Umas forçam o fim.
Outras servem pra lembrar que após o fim, muita coisa não acaba.

E você, moço?
Lhe quero tanto sem sua permissão
Imagine como seria se a tivesse
Não haveria uma parte do meu corpo que não queimasse em febre...
Acho que por isso as paixões são curtas:
A temperatura alta por muito tempo causaria danos irreversíveis ao cérebro...
O meu fundiu diante do inexplicável...
Nada explica esse silêncio.


segunda-feira, 24 de março de 2014

Amostra paga : Nada é de graça


E numa noite qualquer o álcool e a música trouxeram uma amostra do que a minha 'nova vida' poderia ser: Amostra grátis de um remédio repleto de efeitos colaterais.

Foram alguns meses de oscilações agudas: Ansiedade, muita alegria, choro, prazer, riso, medo, dúvida, esperança e desesperança se alternavam em um espaço curtíssimo de tempo... Taquicardia e suspensão de ar... Calor e frio... Não havia o morno. E eu pensava: - ‘Melhor assim, odeio morno’
Ele, o moço, era tudo que eu queria em uma embalagem linda.
Mentira! Não era tudo que eu queria...
Eu não tinha a menor idéia do que queria! 
Mas era tanto... Que servia!!!!
Serviu pra tanta coisa...
Coisas que eu nem sabia sobre mim (só desconfiava)...
Serviu também pra eu me apaixonar.


E é claro, serviu para me decepcionar.
Serviu para eu questionar que porra é essa que me devastou desse jeito...
Não era pra ser assim. Era só para ser bom.


Porque confiando nisso, em 'ser bom'... Fui 'de mansinho'
E depois, confiando nele... Fui 'de verdade'! 



Depois que ele ‘me deixou’, passei de 30 e poucos para quase 40 anos.
Apareceram novas varizes e as celulites se acentuam em volta... Como raízes, caule e flores por toda minha perna.
Em uma semana perdi o tônus muscular... Estou flácida... Seios murchos... Olhos cansados e sem brilho...
Brilho... Achei que era hora da minha estrela brilhar...
Mas quem nasce para Macabéia... Não tem estrela.



Isso que eu escrevi no trecho acima é o antídoto, é assim que me curo...
É a pontinha da agulha rasgando a pele... Para injetar em mim alívio para uma dor que não pensei sentir...  Eu não pretendia.
Mas devia saber...

Fui pretensiosa em achar que eu agora era diferente do que fui!
Não sou.
O tempo não mudou minha 'configuração'.
Eu sou mulher que se entrega... Que se dá... E se alguém quiser menos que isso, vá procurar em outro lugar... Se ficar, não prometo nada além do amor que sinto. 

Enfim,  este final de semana, aconteceu uma coisa ‘simples’ que me trouxe um insight bem complexo.
Fui para a casa da minha irmã em São Paulo e lá eu tenho dois sobrinhos de quatro patas.

Domingo pela manhã, me deparei com meu sapato branco todo mastigado.
Meu sobrinho mais novo, Ubirajara, resolveu mastigá-lo.

Minha irmã brigou bastante com ele... Colocou-o de castigo... Condenou seu ato!
Que dó... Senti pelo Bira muito mais do que senti por meu sapato.

Tentei argumentar a favor... Usando toda a dramaticidade que me é característica:
- Irmã, ele nem sabe direito o que fez... E é só um sapato. Meu coração neste momento está mastigado e ninguém vai pagar por isso... Por que castigá-lo por um sapato???

Ri da comparação... E depois que eu ri, internalizei definitivamente que a culpa do sapato mastigado é só minha...


Fui eu que o deixei desprotegido. O Bira só fez o que cachorros fazem!
E eu sou a única que vou arcar com o prejuízo (nada é de graça): Ficar sem o sapato ou comprar outro, porque para o tamanho do estrago, não há conserto.

Da próxima vez, vou me lembrar de não deixar meu sapato jogado no meio da sala.

Vou mesmo?
 NOTA:
E assim, deixo ir... Meu sapatinho branco.
E assim, deixo ir... Tudo aquilo que não posso fazer ficar.
E assim, deixo ir... Tudo aquilo que eu preciso que vá.
Eu só quero mesmo é ser feliz... Nem que seja tomando 'injeções' de alegria...
'Doses' de vida, entre uma morte e outra.  

Estou sorrindo de novo... Mais uma vezes, pronta para o que vier.
E que venha!!

sexta-feira, 14 de março de 2014

'O que ele não disse' ou 'A importância de pontuar'


ELE NÃO DISSE...
Há tanto tempo, que acho que posso lhe contar.
Há tanta distância, que acho que já posso lhe mostrar.
Você mulher me querer assim é lisonjeio, vaidade que desperta voracidade... Fome de conquista.
Me perdi algumas vezes...
Desconfiava...
Predador, por vezes presa... Oscilei tanto que me assustei, recuei, me joguei e lhe quis ainda mais...
E lhe tive, a despeito de toda a realidade, dos fatos que se sobrepunham como tijolos em um muro, em uma barreira que você insistia em ignorar...

Você,
De desejo de mulher, passou a amor de menina.
De fantasia e carne, você quis sonho e promessa...
Você rompeu o acordo que não firmamos.
Arruinou o que era prazer, vão, pele, tesão e transformou tudo em inocência e dor...
Sofreu profundamente...
Para sentir-se perdoada, legitimou o ilegítimo.

Louca, insana, instável, inconstante...

Confusa, confuso... Confusão.

Retiro minha vida da sua... Ignoro sua vida na minha...

Há tanta coisa que não entendo... Que paro por aqui, antes de ler você por inteiro.. Antes de chegar àquele momento da trama que a gente se percebe não mais leitor, mas um personagem que cresceu involuntariamente nessa história que demanda muito de mim...
Mais do que quero lhe dar.

Você não sabe o que quer.
Eu sei o que não quero.

Nada é proposital.
Tudo é acidental.
E sejamos francos... Essa responsabilidade transcende a mim ou a você.

Por isso, para mim é fácil seguir...
Recomendo que faça o mesmo.


 

 
MAS...
Ele não partiu. Se retirou mas ficou.
Ela permaneceu onde sempre esteve...
O que mudou foi a geografia...
O espaço que tinham ruiu... Erosão... Corrosão...
Onde houve dois, não há nada...
Um grande deserto...
Uma imensidão seca e vazia.


 
 
PONTO FINAL
O mais importante nisso tudo é o PONTO FINAL...
As pessoas precisam aprender usar pontuação...
Se abrir parênteses, feche...
Se iniciar parágrafo, finalize... E indique, esclareça que o seu parágrafo terminou com o maldito PONTO FINAL.
Eu, por minha vez, complico tudo, com esse meu vício de substituir a pontuação adequada por reticências... Três pontinhos...
A pontuação que uso não obedece às normas gramaticais, mas à velocidade e às pausa dos meus pensamentos.
Azar o meu!





NOTA:
Acho que esse texto é de 2009 ou 2008, não sei... É que tem tanto de 2014, que às vezes me sinto andando em círculos!!!
Me esforço pra seguir achando que está tudo bem... E quando faço isso lembro de uma cena da peça B, Encontros com Caio Fernando Abreu... Baseado no conto "Os Sapatinhos Vermelhos", com a melhor atriz que conheço e com quem minha alma dialóga: Minha irmã Gisele.
Minha memória sempre resgata essa cena...
O momento em que ela 'Adelina' se levanta e segue em frente: - "Está tudo bem".

Quem assistiu sabe do que estou falando...
É... Comigo também... Apesar de tudo e exatamente por tudo... "está tudo bem".


* A imagem que ilustra esse 'post' é da cena acima mencionada.