‘Não,
obrigada. Não quero gás’
Aproveitou e molhou sua garganta com um
copo d’água gelado. Ainda sem abrir os olhos, espirrou.
Seu corpo todo doía. Pernas, braços,
abdômen, como se após muitos meses de puro ócio, tivesse voltado aos treinos da
academia que pagava sem ir.
‘Gostosa.
Ele me chamou de gostosa. Ele está coberto de razão. ’
Gargalhou rápido, levou a mão à barriga.
Conteve-se. Doía rir.
Voltou para a cama. Debateu-se como criança
em comemoração por um brinquedo novo. Logo se recompôs. Permaneceu deitada, com
pose de diva, deusa, poderosa, mulher.
Ela o desejou assim que o viu. Há algumas
horas decidiu que o teria.
Ele desceu as escadas. Havia música de
fundo. Garrafa na mão.
Seu sorriso abria-se largo, deslizava para
o canto da sua boca e desfazia-se quando os lábios colavam em um quase
biquinho, bem sutil. Esse processo se repetia várias vezes, enquanto ela,
hipnotizada, pensava como seria ter esse homem no contexto de sua vida... No
mesmo espaço e tempo... De preferência, pouco espaço e muito tempo.
Ah, e o olhar... Olhos de recortes perfeitos,
pequenos, castanhos
‘Ele sabe que é demais, eu nunca tive a
pretensão de deixá-lo na dúvida. ’
Só sua calça jeans era despretensiosa.
O
casaco verde escuro fechado até o pescoço era premeditado.
O cabelo, o cheiro, o movimento:
Premeditados.
Como seria o toque de sua pele?
Ela não era capaz de desviar o olhar. Não
conseguia desejá-lo menos. Sua imagem a embriagava de tal forma que as rédeas
da insegurança soltaram-se uma a uma como botões se abrindo para receber o peso
do corpo deliciosamente áspero... Era o momento de descobrir que gosto teria um homem como ele:
Gosto de sexo.
Experimentado, repetido por horas
ininterruptas. Definitivamente, gosto de sexo.
Sexo para ser feito de olho aberto, para
não perder nenhum detalhe: Que sensação incrível ver seu glamour esgotar-se em
suor...
A dor em seus braços a trouxe de volta de
seus pensamentos. Ajeitou-se na cama.
Sentiu-se ainda mais linda. Podia tudo.
Mulher moderna, bem resolvida.
Foi tudo perfeito, mesmo sem o afago final,
sem a acolhida... A conchinha repousante.
Era dona de seu corpo e com notável poder
sobre o corpo de outro.
Espreguiçou-se, seus joelhos estalaram.
A mulher maravilha reanalisou o tamanho de
seus quadris. Fitou-se várias vezes no espelho em uma torturante auditoria.
Listou várias vezes as palavras que usou. Atentou-se para as duplas
interpretações. Questionou o volume de seus gemidos, a autenticidade dos
fluídos.
Como pôde ir para cama com aquele homem na
primeira oportunidade?
Algo tão surreal. Transe de um ritual
pagão... Não era nada.
Um contra senso, um desequilíbrio de
significados...
Como podia a mesma manchete contar histórias
tão diferentes.
Angústia.
Tristeza.
Pânico.
- ‘Ele acha que sou uma qualquer’.
Chora.
A mulher que desejou, manipulou e gozou,
agora chora.
Ela que há um mês era ‘sujeito’ tornara-se
um mero ‘agente da passiva’.
Lavou o rosto para secar o choro.
O rímel escorria e tingia um ponto de
interrogação na face.
Ainda o choro.
Uma qualquer.
Conquista fácil.
Causa ganha.
Carne morta.
Uma qualquer.
Qualquer uma qualquer.
Um cara qualquer.
Um motel qualquer.
Qualquer coisa para beber.
Qualquer motivo para gemer.
Qualquer coisa para lembrar.
Qualquer um ia querer.
Qualquer um ia gostar.
Uma mulher para qualquer homem querer.
Qualquer que seja o final dessa história,
qualquer coisa que tenha rolado:
‘Foi
porque eu quis’
Qualquer um concorda.
‘É
muito poder para uma mulher qualquer’ – Ela sorriu.
NOTA:
Conto antigo (2008) sobre um assunto antigo... Um assunto qualquer.


