.

.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Uma qualquer

Três da tarde, ela preguiçosamente arrastou-se até o interfone que tocava a quilômetros de sua cama, em seu apartamento de 42 metros quadrados.

‘Não, obrigada. Não quero gás’

Aproveitou e molhou sua garganta com um copo d’água gelado. Ainda sem abrir os olhos, espirrou.

Seu corpo todo doía. Pernas, braços, abdômen, como se após muitos meses de puro ócio, tivesse voltado aos treinos da academia que pagava sem ir.

‘Gostosa. Ele me chamou de gostosa. Ele está coberto de razão. ’

Gargalhou rápido, levou a mão à barriga. Conteve-se. Doía rir.

Voltou para a cama. Debateu-se como criança em comemoração por um brinquedo novo. Logo se recompôs. Permaneceu deitada, com pose de diva, deusa, poderosa, mulher.

Ela o desejou assim que o viu. Há algumas horas decidiu que o teria.

Ele desceu as escadas. Havia música de fundo. Garrafa na mão.

Seu sorriso abria-se largo, deslizava para o canto da sua boca e desfazia-se quando os lábios colavam em um quase biquinho, bem sutil. Esse processo se repetia várias vezes, enquanto ela, hipnotizada, pensava como seria ter esse homem no contexto de sua vida... No mesmo espaço e tempo... De preferência, pouco espaço e muito tempo.

Ah, e o olhar... Olhos de recortes perfeitos, pequenos, castanhos

‘Ele sabe que é demais, eu nunca tive a pretensão de deixá-lo na dúvida. ’

Só sua calça jeans era despretensiosa.

O casaco verde escuro fechado até o pescoço era premeditado.

O cabelo, o cheiro, o movimento: Premeditados.

Como seria o toque de sua pele?

Ela não era capaz de desviar o olhar. Não conseguia desejá-lo menos. Sua imagem a embriagava de tal forma que as rédeas da insegurança soltaram-se uma a uma como botões se abrindo para receber o peso do corpo deliciosamente áspero... Era o momento de descobrir que gosto teria  um homem como ele:

Gosto de sexo.

Experimentado, repetido por horas ininterruptas. Definitivamente, gosto de sexo.

Sexo para ser feito de olho aberto, para não perder nenhum detalhe: Que sensação incrível ver seu glamour esgotar-se em suor...

A dor em seus braços a trouxe de volta de seus pensamentos. Ajeitou-se na cama.

Sentiu-se ainda mais linda. Podia tudo.

Mulher moderna, bem resolvida.

Foi tudo perfeito, mesmo sem o afago final, sem a acolhida... A conchinha repousante.

Era dona de seu corpo e com notável poder sobre o corpo de outro.

Espreguiçou-se, seus joelhos estalaram.

 A verdade é que de todas as dores, nada foi mais doído que o silêncio do dia seguinte, da semana seguinte, do mês.

A mulher maravilha reanalisou o tamanho de seus quadris. Fitou-se várias vezes no espelho em uma torturante auditoria. Listou várias vezes as palavras que usou. Atentou-se para as duplas interpretações. Questionou o volume de seus gemidos, a autenticidade dos fluídos.

Como pôde ir para cama com aquele homem na primeira oportunidade?

Algo tão surreal. Transe de um ritual pagão... Não era nada.

Um contra senso, um desequilíbrio de significados...

Como podia a mesma manchete contar histórias tão diferentes.

Angústia.

Tristeza.

Pânico.

- ‘Ele acha que sou uma qualquer’.

Chora.

A mulher que desejou, manipulou e gozou, agora chora.

Ela que há um mês era ‘sujeito’ tornara-se um mero ‘agente da passiva’.

Lavou o rosto para secar o choro.

O rímel escorria e tingia um ponto de interrogação na face.

Ainda o choro.

Uma qualquer.

Conquista fácil.

Causa ganha.

Carne morta.

Uma qualquer.

 Qualquer uma se sentiria assim.

Qualquer uma qualquer.

 Uma noite qualquer.

Um cara qualquer.

Um motel qualquer.

Qualquer coisa para beber.

Qualquer motivo para gemer.

Qualquer coisa para lembrar.

Qualquer um ia querer.

Qualquer um ia gostar.

 Qualquer coisa, a gente se vê por aí.

 ‘Sou uma qualquer ’-  gritou já sem nenhuma lágrima.

Uma mulher para qualquer homem querer.

Qualquer que seja o final dessa história, qualquer coisa que tenha rolado:

‘Foi porque eu quis’

Qualquer um concorda.

‘É muito poder para uma mulher qualquer’ – Ela sorriu.
 
 
NOTA:

Conto antigo (2008) sobre um assunto antigo... Um assunto qualquer.
 

 

 

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Maldição


A ausência


O vácuo


O buraco negro

A casa vazia, o corpo vazio, a mente vazia

A morada do Diabo

O caldeirão da bruxa

Onde fervem as emoções

Perna de sapo, língua de cobra, ferrão de escorpião

Está pronto o feitiço, o desencanto

Capaz de transformar o amor em sentimentos muito menos nobres

 
Condeno-te, enveneno-te,



Alucine por esse corpo que não é mais teu

Nem meu
 
Encanta-me teu sofrimento

Encanta-me tua saudade

Encanta-me tuas mãos no teu sexo

Enquanto eu danço na tua mente

Olha pra mim

Treme

Dança comigo

Dança tua morte por exaustão

Tua dor dói em mim

Teu corpo sangra pelos meus poros

Escuta! Mergulha! Vem!

...


Sensato, muito sensato

Homem de palavra, quebra ela por mim!

Não faz sentido quando não há mais nada inteiro por aqui.

  
 
NOTA:
Maldições às vezes escapam dos livros de contos de fada...
Até o amor às vezes escapa dos contos de fada...
E se instalam por acidente bem no meio de uma vida normal e burocrática, de hora para acordar, de metas nas empresas, contas para pagar, de som alto, álcool e música... Cenários completamente improváveis.
Não há príncipes ou princesas... Só o amor e a maldição... Tão parecidos em sua essência.
Sem espadas, também não há luta... Sem bruxas, não há culpados...
Apenas a inércia... A espera... O sonho... E a insônia.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Ilusões


Eu não respondo aos fatos diante de mim.

Eu não respondo à lógica... Não respondo ao 1 mais 1 igual a 2.

Não respondo a tendências... Aquela coisa de ‘se você fizer isso terá aquilo porque é assim que as coisas funcionam’.

Provas diante dos meus olhos não me impressionam.

O que me faz seguir em frente ou recuar está vinculado único e exclusivamente a ilusão.

Eu penso com meu corpo inteiro, não com a cabeça.

Enquanto eu conseguir ver um resquício de sim, todo o não é ignorado.

É o que eu sinto... O que eu crio... O que eu imagino e desejo que me faz parar... Ou seguir!

E assim, eu sigo por estradas que não existem... Despenco em abismos porque crio frágeis pontes onde não há nada... E sou abatida em guerras que entro por acreditar que as débeis armas que possuo são poderosas o bastante.

Minha força é um devaneio.

Minha sabedoria não está armazenada em forma de dados, mas de sensações.

Meus acertos puro instinto e sorte.

Tenho pulsões que me fazem perder o controle e o juízo.

Tenho juízes que me condenam e me absolvem dentro de mim em um brado esquizofrênico.

Tenho tudo, menos o silêncio... Eu não entendo o silêncio.

Tenho medo.

Tenho a dúvida se mereço, mas tenho a ilusão de que o amor vai acontecer.

E enquanto eu tiver essa ilusão... É queda livre.