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quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Credo


Eu não acredito no amor... Ele mente para mim, mas é inócuo, porque eu simplesmente não acredito.

Ele me diz coisas lindas, enche minha cabeça de sonhos, meus lábios de sorrisos e meus olhos de lágrimas... Ele se esforça para provar que é real, mas eu não acredito nele.

E como sabe que aprecio, ele fala comigo...
Articulado e eloquente me conta histórias, me envolve nelas e tenta de todas as maneiras me fazer querer o que eu quero...
Eu quero.
Não acredito, mas eu quero.


Ele fica na espreita... Prepara seu bote e se joga sobre mim quando estou distraída assistindo TV...
E corta meus pensamentos com a lembrança de um homem, um nome, um toque, um sorriso, um beijo...


Às vezes, converso com ele e peço... ‘Fica fora disso’.

E ele ri... Ri da minha cara... Puro escárnio... Dá de ombros.

Cínico!

O amor é um cínico... Ele abusa do poder... Do poder que não tem sobre mim.


Tem sim.

Ele me desarma. Ele me deixa frágil, insegura, ansiosa, vulnerável... Faz de mim uma pessoa pior.

E pior eu sou melhor... E ele sabe disso... Que amando eu sou melhor.

Sou?

Ele chacoalha a frágil plataforma em que me sustento... Uma plataforma sobre um mar aberto e revolto... Desestabiliza minha instável estabilidade.

E como uma droga, potencializa tudo... As piadas são mais engraçadas, as comidas mais gostosas, as bebidas mais embriagantes, os orgasmos chegam a ser impensáveis.  
O sol brilha mais... Mas a noite é mais escura, a dor mais pulsante, o silêncio mais torturante... E o medo que deveria me proteger apenas me assiste... Observa-me enquanto eu sigo em frente apesar de tudo... Apesar do nada.


Sou menos tremor e mais convulsão...

Sou menos conforme... Sou mais de mim e menos eu.

O amor, maldito seja, me enche de dúvidas...

E me faz questionar a maior certeza que eu tinha... A de que eu não acredito nele.

Não acredito.

Acredito que não acredito.

Acredito que não devo acreditar.

Não acredito que eu acredito...

Sem crédito, acredito.

Credo.