Bicho
Às vezes eu sou um bicho
Desses de garras, dentes e instinto.
É só o que eu quero que importa
O que inexplicavelmente quero.
É só a fome e a sobrevivência
Não tenho nome.
Fúria
Às vezes eu sou só fúria...
Renego o amor, renego o medo,
Renego tudo que possa diminuir meu tamanho, minha força.
Às vezes eu sou enorme, não caibo em mim.
Desejo
Às vezes sou só desejo e por ele me exponho ao risco.
Sou incongruente...
Minhas escolhas são feitas com o corpo.
Nem cabeça, nem coração:
Só o corpo.
Vaidade
Às vezes, muitas vezes, sou vaidade!
Entrego-me a ela.
Gosto dos olhos que me olham...
Gosto do corpo que me quer...
Gosto, simplesmente gosto... Por vaidade
Vaidade impura.
Silêncio
Eu nunca sou silêncio.
Falo o que há de pior,
Falo o impensável
Só para que o silêncio não me rasgue ao meio.
O silêncio perfura meus tímpanos com a verdade.
Às vezes, só às vezes, me canso.
Às vezes, só às vezes, minto.
Às vezes, poucas vezes, sinto culpa.
Às vezes sinto...
Sinto muito...
Sinto demais.
Às vezes, sou outra coisa.
Totalmente outra coisa...
E de repente, não sei o que fazer.
Porque de repente, tudo que quero me torna frágil...
E por isso tenho medo.
Às vezes sou mãe, sou amiga, sou filha, sou irmã, sou escritora, sou analista de recursos humanos, sou mulher, sou mortal...
Só me sinto segura quando sou bicho.
Às vezes... Boa parte das vezes, não sou bicho.
