Sempre que estou quase esquecendo, lembro.
Lhe procuro de novo.
Trocamos palavras e tudo reascende muito rápido, toma força, toma corpo e é como se fosse ontem.
Você é exatamente a mesma pessoa... E embora o tempo, cruelmente irônico por natureza, só me deixasse lembrar de tudo que me leva recorrentemente a você, há mais.
Há muito mais... Há os menos.
Há muito mais... Há os menos.
Lhe procuro porque sou viciada na dor e no seu silêncio.
Lhe procuro porque sou viciada no seu abandono.
Lhe procuro como quem corta a pele compulsivamente até sangrar... me machucando intencionalmente, patologicamente... para fugir da realidade de não sentir.
A dor me difere dos que nada mais sentem... é o meu medo da morte quem diz.
Busco sua imagem, escuto suas músicas, cheiro o seu perfume, associo palavras e situações a você... e assim coleciono feridas na minha pele que paga o preço de viver sem a sua.
E pensar que você não é nada além de um punhado de orgasmos, cheiros, saliva...
E pensar que eu temia sua partida desde o instante de sua chegada...
E pensar que eu sempre soube... Sempre sinceramente soube que você não tinha espaço em nenhum lugar da minha vida, só dentro de mim... Fisicamente dentro de mim.
Me arranho até que pontinhos minúsculos de sangue minem das fibras rompidas da minha pele.
Aprofundo o corte até que se transforme em um fino fio quente e vermelho.
Passaria o dia esperando meu corpo expelir você nessa sangria.
Decido que basta...
Mas basta eu pensar em você e começa tudo outra vez.
