“-Você tem
um cigarro?
-Estou tentando parar de fumar.
-Eu também. Mas queria uma coisa nas mãos agora.
-Você tem uma coisa nas mãos agora.
-Eu?
-Eu.”
-Estou tentando parar de fumar.
-Eu também. Mas queria uma coisa nas mãos agora.
-Você tem uma coisa nas mãos agora.
-Eu?
-Eu.”
Restava acender outro cigarro, e foi o que fez. No momento de dar a primeira tragada, apoiou a face na mão e, sem querer, esticou a pele sob o olho direito. Melhor assim, muito melhor. Sem aquele ar desabado de cansaço indisfarçável de mulher sozinha com quase quarenta anos, mastigou sem pausa e sem piedade. Com os dedos da mão esquerda, esticou também a pele debaixo de outro olho. Não, nem tanto, que assim parece japonesa. Uma japa, uma gueixa, isso é que fui. A putinha submissa a coreografar jantares à luz de velas."
(3)
"Eu
quis tanto ser a tua paz, quis tanto que você fosse o meu encontro. Quis tanto
dar, tanto receber. Quis precisar, sem exigências. E sem solicitações, aceitar
o que me era dado. Sem ir além, compreende? Não queria pedir mais do que você
tinha, assim como eu não daria mais do que dispunha, por limitação humana. Mas
o que tinha, era seu.”
(4)
"E
bati. E bati outra vez. E tornei a bater. E continuei batendo sem me importar
que as pessoas na rua parassem para olhar. Era tudo um engano, eu continuava
batendo e continuava chovendo sem parar. Eu só estava parado naquela porta
fazia muito tempo, depois do ponto, tão escuro agora que eu não conseguiria
nunca mais encontrar o caminho de volta, nem tentar outra coisa, outra ação,
outro gesto além de continuar batendo batendo batendo batendo batendo batendo
batendo batendo batendo batendo batendo batendo batendo nesta porta que não
abre nunca."
(5)
“Mas se eu
tivesse ficado, teria sido diferente? Melhor interromper o processo em meio:
quando se conhece o fim, quando se sabe que doerá muito mais -por que ir em
frente? Não há sentido: melhor escapar deixando uma lembrança qualquer, lenço
esquecido numa gaveta, camisa jogada na cadeira, uma fotografia –qualquer coisa
que depois de muito tempo a gente possa olhar e sorrir, mesmo sem saber por
quê. Melhor do que não sobrar nada, e que esse nada seja áspero como um tempo
perdido.”(6)
(7)
(8)
(9)
E por fim...
NOTA:
Minha intenção não é passar a publicar no meu blog textos de escritores famosos... Sempre gostei dos textos de anônimos...
Porque eu sou anônima mesmo quando assino um texto.
E eles, às vezes, tocam alguns outros anônimos... E juntos sussurramos em coral:
Em um sorriso bem fotografado há também a indissimulável dor no olhar...
Há o pranto que não registramos e tudo aquilo que não ousamos dizer.
Caio disse... E o que ele disse é literatura reconhecida e premiada... Gera admiração.
Quando eu digo... Minhas palavras são apenas 'blá' de uma mulher intensa demais... Quase chata... Quase triste.
Reli os trechos acima de Caio Fernando Abreu diversas vezes... Em diversos momentos da minha vida... Tão meus! 10 trechos do Caio... E eles são todos sobre mim.
E antes de finalizar o post... Achei mais um... E mais uma vez... É exatamente o que eu quero dizer:
"Deus, põe teu olho amoroso sobre todos os que já tiveram um amor e de alguma forma insana esperam a volta dele: que os telefones toquem, que as cartas finalmente cheguem."

Nenhum comentário:
Postar um comentário