O restaurante era em frente a uma das praias mais bonitas do
local.
Havia sonhado com esse encontro diversas vezes, mas por
razões diversas em momentos diversos, ele nunca acontecera.
Hoje, parecia ser enfim o grande dia.
Sentia que algo muito bom estava para acontecer...
Algo que mudaria sua vida para melhor!
Deixara a capital rumo ao litoral, já na quinta-feira,
aproveitando o feriado prolongado.
Hospedara-se em uma pousada bem simpática, pé na areia, e
tratou de relaxar, repensar sua vida com os pés na água salgada.
Depois de seis anos de idas e vindas e mais um inteiro de
total ausência, estariam juntos finalmente, com a proposta de conversar,
chegarem a uma definição... Um relacionamento de verdade, já que eram perfeitos
juntos.
Conheceram-se no curso de MBA em Marketing e tornaram-se
amigos.
Ele era noivo, ela namorava, mas tinham tanta coisa em
comum, que pareciam predestinados...
Em casos como esses, de pessoas certas na hora errada, o
tempo se encarrega de mostrar o caminho... Mas sete anos? Isabela não podia
mais esperar.
Durante todo esse tempo, tentaram dar as mais diversas
conotações para o que havia entre eles: Tantas vezes ‘sim’ e tantas vezes
‘não’, que o ‘talvez’ instalou-se sobre os dois.
Seguiram vidas paralelas... Na mesma direção, mas
experimentando uma ausência que traria enfim, as respostas que precisavam.
Era noite de sábado, afinal.
Isabela parou seu carro no estacionamento de areia em frente
o local marcado.
Olhou-se no espelho do retrovisor.
Retocou o lápis dos olhos.
Sentia um misto de esperança e ansiedade contidas pela ‘voz
da experiência’.
Já na mesa, pediu uma caipirinha de Saquê com Kiwi e
prometeu a si mesma que seria a única que beberia.
Alguns minutos depois ele chegou.
Fitaram-se imóveis por alguns instantes.
Ele caminhou até ela e beijou-lhe a testa.
Sentou-se e perguntou o que ela bebia.
Diante da resposta habitual, do drink habitual e do sorriso
habitual, Ivan relaxou:
'Tudo estava em seu devido lugar’.
- Senti saudades.
- Sentiu? – A mulher segurou o impulso de dizer ‘eu também’.
- Você sabe que sim.
- Sei? – Ainda na defensiva.
- Adoro você, sempre adorei.
O silêncio permaneceu.
Ele pediu uma cerveja e o menu.
- Então... Como estão as coisas... Sem... Mim? – Perguntou
um pouco sem graça, por não encontrar as palavras certas.
- Como sempre estiveram, Ivan, já que nunca houve ‘as coisas
com você’ – Falou, mantendo a voz mansa, sem alterá-la em nenhum momento.
- Isa, não seja injusta, sei que o tempo que passamos juntos
foi maravilhoso para nós dois e sei também que o tempo que demos foi bom para
descobrirmos o que somos um para o outro...
- E?
- Você é muito importante para mim.
O garçom se aproximou.
Fizeram o pedido, sem rodeios, já que conheciam o gosto e o
sabor um do outro.
Enquanto esperavam a chegada dos pratos, beliscavam as
azeitonas do ‘couvert’.
Havia MPB ao vivo – voz e violão.
Conversavam amenidades quando Isabela percebeu que as cordas
do violão introduziam uma canção que ela gostava tanto... Já havia comentado
tantas vezes com Ivan que era sua preferida... “Luz dos Olhos”.
Pensou em fazer um comentário.
Na verdade, esperou por um comentário.
Viu que ele havia levantado a sobrancelha para dizer algo e
sorriu na expectativa de ouvir o que diria...
O garçom chegou com o pedido.
- Nosso pedido. Rápido, não? É difícil ter restaurantes com
um serviço tão bom no litoral.
Jantaram.
Falaram de tudo um pouco: Trabalho, amigos em comum...
Relembraram algumas viagens que fizeram juntos... Enquanto
riam, Ivan tocou o rosto de Isabela e perguntou:
- Como foi que ficamos tanto tempo separados?
Ela segurou a respiração e sorriu. Retribuindo o carinho,
tocou-lhe o rosto dizendo:
- Não sei Ivan, não sei... Nós somos tão bons juntos –
baixou de vez suas defesas.
Beijaram-se.
Um misto de felicidade e ressentimento explodiu em um beijo
lento e forte.
- Vamos tentar de novo – disse Ivan – Não me deixe fora da
sua vida.
- Você sempre estará nela, Ivan, sempre.
Entre beijos o casal trocava juras.
- Desta vez, não cometeremos os mesmos erros... Daremos mais
espaço um para o outro... Sei que você se arrepende dos erros que cometeu...
Isabela parou o beijo, selou os lábios e o afastou...
Olhou em seus olhos e disse:
- Ivan... Eu sou humana e cometo erros, nós...
Ivan interrompeu em euforia:
- Sim, comete... Se você não tivesse aberto a minha
correspondência e visto tanta coisa que não faz parte de nós, estaríamos bem
até hoje... Nunca te contei, porque aquilo não fazia parte de nós dois... Você
não tinha que saber de nada disso... Estaríamos bem... Como sempre estivemos...
E já não ouvindo mais nada, Isabela lembrou-se da relação de
restaurantes e motéis listados na fatura do Mastercard de Ivan, datados de dias
que ele precisava ‘pensar,’ ‘ficar só’, de ‘espaço’...
'Ficar como sempre estivemos? Espaço? É essa a proposta após
anos de espera e silêncio? Ele só pode estar louco' – Seus próprios pensamentos
era tudo o que ela podia escutar.
- Ivan, vai embora. – Solicitou em voz firme, mas baixa.
- Isa?
- Vai embora, Ivan – Manteve o tom.
- Mas uma vez, Isa, você está sendo imatura e colocando essa
coisa boa que a gente tem em risco.
'‘Coisa boa’? Ele não tem nem um nome para definir o
temos... Cretino, arrogante, egoísta...' – Seus pensamentos iam e vinham em uma
velocidade incontrolável.
- Vai embora.
- Vou. Vou te deixar pensar. Você está muito exaltada
agora... Não está pensando direito e quando colocar sua cabeça em ordem, verá
que tenho razão...
'Exaltada? Ele não imagina como eu luto para não demonstrar
o tamanho de minha exaltação...'
- Vai embora – No mesmo tom frio, mas aumentando o tom de
voz o suficiente para embaraçá-lo e fazê-lo temer um pedido ainda mais alto.
Ivan inclinou-se para beijá-la. Isabela recuou.
Ficou sentada por horas no restaurante, com seu copo cheio
que nem chegou a tocar e a comida que não chegou a comer.
Seu olhar estava perdido no vazio e no silêncio profundo,
quando o garçom a interrompe:
- Senhora, estamos encerrando por hoje... A senhora gostaria
de mais alguma coisa ou podemos encerrar sua conta?
Isabela olhou ao redor, percebeu que os funcionários do
local a fitavam, não havia mais ninguém no restaurante, apenas um casal na
porta se despedia do chef de cozinha, elogiando o delicioso jantar e, próximo
ao palco improvisado, o músico guardava seu violão e bebia um copo d’água,
enturmando-se com os garçons.
Envergonhou-se e disse:
- A conta, por favor.
- Nosso maitre pediu para dizer que é por conta da casa, na
expectativa que a senhora volte e desfrute de sua culinária quando sentir-se
melhor.
Isabela insistiu algumas vezes, mas acabou cedendo.
Entrou em seu carro e antes de dar a partida, abriu espaço
para um pranto doído, silencioso...
Não fossem as lágrimas, a veriam inerte, como se nada
sentisse, como se não respirasse.
A mulher não pensava em nada, mas assustou-se quando bateram
no vidro de seu carro.
Percebendo o susto, o rapaz tratou logo de explicar-se:
- Me desculpe se te assustei. Acredito que isso seja seu.
Você esqueceu sobre a mesa.
Ainda zonza, Isabela que ainda não articulava bem as
palavras, não tentou secar o rosto... Não se preocupou em parecer melhor do que
se sentia:
- Desculpe-me, o que disse?
- Bem, meu nome é Saulo... Eu toco no restaurante sempre que
estou por aqui... Acho que isso é seu... Do hotel onde deve estar hospedada...
Ela olhou para o chaveiro, uma concha de resina azul, com o
número 28 gravado em dourado.
- Toca? No restaurante? Desculpe-me... É sim minha chave...
Obrigada.
- Por nada. Você está se sentindo bem? Posso ajudar em
alguma coisa?
- Estou... Estou bem, eu acho.
Ele sorriu ainda abaixado junto à janela do carro,
afastou-se aos poucos e acenou dando as costas.
Isabela o viu afastar-se, com o violão nas costas, calça
jeans, sandália de couro, camiseta de malha preta, cabelos compridos o
suficiente para que o vento do litoral soprasse através dele...
Ele seguia em direção a uma moto estacionada bem o próximo a
entrada do ‘Restaurante Kuará’.
Ela colocou a cabeça para fora da janela e gritou:
- Ei... Você disse que toca sempre aqui?
Ele voltou e abaixou-se próximo a janela:
- Sim... Sempre que estou por perto... Feriados prolongados,
alta temporada... O pessoal costuma gostar... Cheguei a pensar que você tinha
ficado até o final por que estava gostando do som... Para que pelo menos a
música valesse a noite – Riu tímido, pela indiscrição que cometera.
- Desculpe-me... A noite não foi mesmo boa.
-São exatamente duas e sete. – Disse o músico, olhando seu
relógio. – Você ainda pode ter uma boa noite...
- Não sei... Quem sabe uma boa noite de sono.
- Quem sabe.
Isabela procurou encerrar logo a conversa para que não
caíssem naquele incômodo silêncio:
- Você tocou minha música preferida hoje, eu acho... Chamei
você porque queria que você soubesse que seu trabalho faz diferença...
- Quando tudo parece ruim, ainda resta a música. – Ele sorriu.
Isabela sorriu de volta.
Palavras certas, na hora certa, o sorriso certo... E
indiscutivelmente, o perfume certo...
Isabela vê o músico se afastando mais uma vez.
Uma bela imagem... Uma bela paisagem...
Ligou o carro, voltou para o hotel.
Entrou em seu chalé, preparou-se para o banho, ligou o
chuveiro.
Escutou um barulho na varanda... Uma movimentação estranha.
Enrolou-se rápido na toalha e foi espiar através das
treliças da porta de madeira em frente à sacada.
Viu um homem no jardim...
Ele parecia contar as janelas...
Ficou olhando para ver o que ele faria...
Preparando-se para ligar na recepção da pousada e pedir
socorro se fosse necessário.
Percebeu que ele tinha algo nas costas, o que logo
identificou ser um violão...
Era Saulo!
Ainda com as treliças fechadas e com voz sussurrada,
perguntou:
- Saulo? É você?
- Opa! Você lembra meu nome!
- O que você está fazendo aqui?
- Tenho três perguntas que preciso fazer... Não gosto de
deixar nada sem dizer... Não pude ir embora sem passar aqui...
- Estou entrando no banho agora... Eu só quero que essa
noite acabe. Pode ir embora... Não se preocupe comigo... Sei que pareço
perturbada, mas não tenho tendências suicidas.
Saulo sorriu, jogando a cabeça para traz.
- Imagino que não. Posso esperar na varanda?
Isabela não respondeu. Ao invés disso, abriu a porta e foi
até a varanda.
- Costumo demorar no banho, não quero te deixar esperando...
O que você quer?
- Seu nome... Você não me disse...
- Isabela – Disse sorrindo.
- Isa-bela... Faz sentido. – Ele sorriu de volta e continuou
- Isabela, você disse que toquei sua música preferida... Posso saber qual é?
- Luz dos Olhos, do Nando Reis.
- Faz ainda mais sentido, Bela... Posso te chamar assim?
- Pode...
Ficaram em silêncio se olhando... Ela na varanda, ele no
jardim.
- Ah! Terceira pergunta... Quase esqueci... Posso te ajudar
em alguma coisa?
- Você já me fez essa pergunta hoje...
- E você não respondeu.
Isabela sorriu um sorriso largo, relaxou os ombros:
- Não jantei... Estou com fome...
- Tenho uma maçã, ela está na minha bolsa desde manhã e uma
garrafa de vinho que peguei no restaurante quando decidi que vinha para cá...
Está gelado... O que você acha? – Perguntou o músico mostrando a garrafa.
- Sobe... Vou abrir a porta.
- Não precisa, se você disser que sim, eu pulo pela varanda
mesmo.
- Sim.
- Então diga...
- O que? – Disse a mulher, confusa.
- ‘Diga que você me quer’.
Isabela completou a estrofe de sua música preferida:
- ‘Que eu te quero também’.
Saulo pulou para dentro da sacada, abraçando Isabela pela
cintura.
Beijou seu pescoço, seu colo, sua boca.
Deitou-a sobre a cama, em frente à sacada e desatou o nó da
toalha.
Contemplou por alguns instantes o corpo da mulher e
mergulhou nele... Um mergulho lento, profundo e voraz.
Sentiu seu gosto e assistiu seu êxtase... Como quem assiste
o mais belo nascer do sol do litoral.
Despiu-se com a ajuda de Bela...
Encostou-a na parede, segurou seus seios, mordeu suas
costas...
Puxou-a contra si e ali, daquele jeito, compartilharam um
prazer intenso e sem culpas.
Não tocaram na maçã, mas beberam todo o vinho.
Não falaram nada sobre o que havia acontecido no
restaurante: Ele não queria saber. Ela não queria falar.
Conversaram um pouco sobre o que faziam, do que gostavam...
- Canta para mim... A música – Pediu Isabela com um
entusiasmo quase infantil... A vontade em ser ela mesma.
- Agora?
- Agora...
- Tudo bem... Mas não vou conseguir terminar.
- Por que?
- Acredita em mim...
Saulo levantou-se, pegou o violão e o batom de Bela, que
avistou sobre o criado mudo.
Cantou para ela sentado sobre os travesseiros no chão.
Ela o assistia em encantamento... Sentada na cama, com o
lençol puxado para si, num gesto de infundada timidez.
A voz melódica de Saulo preenchia o ambiente:
“Pinta os lábios para escrever a sua boca em minha”.
Nesse momento, ele largou o violão, ajoelhou-se aos pés da
cama e pintou com batom a boca de Isabela:
- Escreve...
- Onde? – Bela perguntou.
- Vem sem medo... Onde você quiser...
E conforme as previsões de Saulo, ele não terminou a canção.
Assistiram o sol nascer da sacada do chalé, tomaram café
juntos e dormiram, exaustos, na praia.
Almoçaram no mesmo restaurante do dia anterior: O chef
merecia ser prestigiado afinal.
Despediram-se, trocaram telefones, e-mails, beijos e um
longo abraço.
Ele ligou já no domingo à noite.
Queria saber se ela havia chegado bem.
Na quinta seguinte, ela foi vê-lo tocar em um Bar em Moema,
com algumas amigas.
No sábado seguinte, ele saiu à uma hora da manhã do
trabalho, um restaurante nas proximidades da Paulista e encontrou-se com ela em
um barzinho próximo a Perdizes, onde ela mora.
Saulo chegou lá com o restante da banda.
Apresentou-a:
- Banda, esta é a Isabela... Minha Bela, se ela quiser e
enquanto ela quiser...
Ela quis.
Quis ser Bela de Saulo.
Ela quis ser sua namorada.
Quis a intimidade repentina, a velocidade dos
acontecimentos.
Ela quis o querer de Saulo...
A proximidade, o curto espaço que precisavam entre os dois
para manter a saúde da relação que tinham...
Gostavam de estar perto...
Era natural ligar para apenas escutar a voz, rapidinho,
entre uma reunião e outra...
Entre uma canção e outra...
Luz dos olhos de Saulo.
Luz nos olhos de Isabela.
NOTA:
Luz dos Olhos é uma canção de Nando Reis. É linda... Uma
preferência pessoal mesmo...
A Cassia Eller regravou a música... Adoro Cassia Eller, mas
o Nando Reis canta essa música como eu gosto de escutá-la...
E eu acho que é isso...
Que eu quero isso...
Algo assim...
Em que querer estar perto seja algo natural...
E eu acho que é isso...
Que eu quero isso...
Algo assim...
Em que querer estar perto seja algo natural...

3 comentários:
Delícia...
Quem não quer uma história assim... Em que 'tudo bem se apaixonar'?
Estou romântica hoje... ahahahah \0/
Lindo!!!! Depois de um tempo, estou a procura de um Saulo.
Ah, Lívia...
Como eu queria me apaixonar por um Saulo...
Mas o meu coração é um traíra... Utiliza critérios que eu até entendo... Mas que não facilitam em nada a minha vida!!!!!
Beijosssssssss!!!
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