.

.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Fundações

Vou começar pela nota hoje!!!

NOTA:

Escrevi em 2004 mas na época compartilhei com duas ou três pessoas.
Em 2008 reeditei, inscrevi em um concurso de contos e ganhei!!!! Olha só!!!!
É um conto gostoso... Para sorrir e sonhar!
Então lá vai... "Fundações"!


 

Clara, 35 anos, engenheira. Consultora na área de construção civil.

Sua grande paixão eram as fundações. Acompanhava com carinho, cada tok,  tok das estacas sendo fincadas no chão.

Era um novo desafio, uma nova empresa. Abandonara as sobrepostas e casas luxuosas e atirara-se em um novo segmento: shoppings e centros empresariais.

Firmesa, estrututra, estabilidade. Bases bem feitas garantem o equilíbrio de todas as outras coisas. 'É assim em tudo!' - Pensava com simplicidade e paixão.

Achava que arcos, janelas e desníveis, eram coisas para arquitetos. O importante eram as fundações.

Tok, tok, tok, está nascendo mais um lindo gigante de concreto!

Ednaldo, 34 anos, mestre de obras. Neto de pedreiro, filho de pedreiro. Sua família tinha tanta tradição na área da Construção civil que a empreiteira orgulhava-se em ter empregado as três gerações de funcionários dedicados, minuciosos, experts em sua área.

Ednaldo era tão esperto que os engenheiros escutavam seus palpites com consideração e respeito.

 
-'Seu Marcos, eu sei que o senhor é doutor e com certeza sabe muito da sua função, mas o senhor permite que eu diga “o meu ver”? ... Então, acho mesmo que ‘cês tão perdendo dinheiro nessas fundações. Tem mais de "fundura" e concreto aqui que tinha no "uord treide center". Por exemplo, com dois terços do material e por sua vez com pouco mais que a metade do tempo já levantei prédios de 20 andares'.

Marcos chamou a consultora para ouvir Ednaldo.

Clara fitava Ednaldo enquanto ele falava. Queria mesmo olhá-lo de cima, mas não pôde. O moço tinha, por baixo, um metro e noventa. Queria não notá-lo em sua insignificância e suas teorias sem nenhum embasamento técnico, mas ele gesticulava como louco com seus braços pesados como seu corpo desenhado com músculos sufocados no uniforme justo e suado.

- Seu nome?


- Ednaldo.


- Você é...?

- “Sô” mestre...

- Mestre de ...?

- De obras. Como meu pai e meu avô, se a senhora quer saber – Irritando-se com os questionamentos, na verdade um organograma, para colocá-lo em seu lugar.

- Não, não quero. Escuta Ed...ed...

- ...naldo. Meu nome é Ednaldo.


Clara argumentou impaciente sobre seus cálculos, usando todos os jargões possíveis para calar o rapaz e fazê-lo sentir-se o mais desconfortável possível. Até que, percebendo a situação, na tentativa de acalmar os ânimos, Marcos sugeriu que fossem almoçar.

No refeitório, Marcos, que precisou se ausentar, deixou a engenheira, Ednaldo e um inevitável silêncio no refeitório quase vazio. Já eram duas da tarde.

Clara, observava Ednaldo que esparramava a alface para comer o bife quase frio com 'garfadas que pareciam não cortar o bife, mas matar o boi'. Ela riu da comparação idiota.

Ednaldo levantou a cabeça.

- Rindo para mim?

- De você.

- Você fica bonita sorrindo. Devia fazer isso mais vezes.


Clara emudeceu e depois indignou-se.


- Como, se lido com gente irritante todo o tempo?

- Eu também. Irritante e de nariz em pé...


Ednaldo ficou em silêncio por alguns segundos e disparou:


- Mas sabe... Eu acho que você se defende... No fundo é assustada... Se porta como homem porque ser mulher te dá medo – e com um sorriso sarcástico finalizou - Se eu te pegasse, você ia gostar... porque o que eu faço, nenhum desses doutores que você trata com respeito sabe fazer.

Clara levantou-se, muda. Não disse uma palavra.

Passou o dia quieta.

No final do dia, como sempre, Ednaldo foi o último a largar o serviço. Eram quase oito da noite. Clara viu quando o peão tirou o capacete e se dirigiu ao vestiário. Apressou-se em alcançá-lo. Entrou no momento em que ele abria a camisa do uniforme.


Ela parecia ter a respiração suspensa, seu rosto estava tenso, seu maxiliar travado, mas seus olhos tinham um brilho estranho, como se algo queimasse lá dentro.


Ednaldo sorriu.


- Como é mesmo seu nome?

- Ednaldo, mas todo mundo me chama de Naldo.

- Ed. Eu quero te chamar de Ed.

Ednaldo segurou-a pelos braços e jogou-a sobre o banco de madeira. Com a habilidade de um profissional tocou todo seu corpo sem que uma peça de roupa fosse realmente tirada.

Enquanto ela enlouquecia, Ednaldo emaranhava os cabelos de Clara em seus dedos e cheirava seu pescoço como se estivesse preste a devorá-lo.


Quando Ednaldo desabotou sua calça e abaixou-se para arrancar a pesada bota de borracha, Clara disse ofegante:


- Não, não tira. Fica de uniforme.

Ednaldo riu um meio sorriso, cerrou os olhos.

Despiu Clara e fundiu seu corpo moreno e seu uniforme sujo na pele branca e perfumada da mulher.


- Cheiro de princesa.


Clara perdeu o ar.

E o shopping foi construído assim, longos dias de muito trabalho, olhares provocantes, comentários cínicos e longas noites nos vestiários, nos refeitórios vazios, nas lages e nas mesas do escritório.

Panorama Shopping foi inaugurado.

Na noite seguinte Clara convidou Ed para jantar na casa dela. Estaria sozinha.

Ednaldo chegou às nove. Calça jeans claro, camisa de botão azul, sapato preto, perfume.

Clara passou todo o jantar muda. No final da noite disse que não deveriam ter ido tão longe. O caso encerraria naquele momento.

Ednaldo saiu. Bateu a porta. Chutou a porta do elevador.

Voltou mais tarde, tocou o interfone. Disse que entendia. Trouxe um presente, algo para ela guardar de recordação, afinal, foram bons momentos.

Era o uniforme, óculos, capacete e botas.

Ednaldo não foi embora aquela noite.

Voltou muitas outras.

Não se cansam de discutir a profundidade adequada das fundações.

2 comentários:

Livia disse...

Adorei! !!! O diferente é sempre melhor. Acho que no fundo toda mulher deveria ter um Ednaldo em algum momento da vida. Bjo

Daniela disse...

Lívia!!
Vou te contar um segredo... Meus personagens são sempre inspirados em uma ou mais pessoas...
A Clara tem muito de Lívia! Toda vez que leio, me vem vc em mente!!!
Que bom que vc gostou!!!!!