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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Paradoxo

Romperam.

Após 8 anos juntos, Marcela e Danilo não eram mais... ‘Má’ e ‘Dan’.

Marcela era simplesmente Marcela...
Não só Má...  Era Marcela inteira.


E tudo bem depois do baque, do susto, da raiva, da solidão, da aceitação e do redescobrimento de si mesma.
A vida segue e ela seguiu, primeiro como deu... Depois como escolheu.
Mas isso é mera introdução.

Esses dias, Marcela recebeu uma ligação de um amigo.
O amigo super bem intencionado falou o quanto ela ainda era jovem e bonita e muito merecedora de amor e felicidade... Que torcia por ela porque ela era diferente da mulherada por aí, ela era uma moça bacana e que só tinha ‘louca dando sopa’... Que as mulheres estavam muito fáceis... Disponíveis, mas que ela era diferente e logo ela encontraria alguém legal que valorizasse isso.

Imediatamente ela lembrou dos ‘posts’ de Facebook de suas amigas... Eram indiretas pra todas essas ‘vacas’, inclusive a que, de alguma forma, influenciou no final de seu relacionamento. Amigas sempre abraçam causas como essas!
Eram sempre ilustrações engraçadas, com frases como “mulher safada tem de monte”, “mulher fácil é fácil” e falando sobre as vagabundas soltas por aí... Que não se valorizam, que correm atrás, que topam tudo... E o quanto elas, Marcela e suas amigas, eram mulheres que mereciam ser bem tratadas, mereciam sorte, mereciam amor... Porque eram “direitas”.

Nunca se sentiu a vontade em 'curtir' esses 'posts'.
Agradeceu, despediu-se, desligou o telefone, encolheu o ombro... Sentiu algum embaraço.


O engraçado é que ela não havia sentido embaraço ao mandar 15 mensagens no mesmo dia pro ‘carinha’ que estava saindo e tinha escasseado o contato, depois é claro de dormir com ela.
O estranho é que ela não tinha sentido vergonha de mandar fotos convidativas para provocar novos encontros.

O que a intrigava é que em nenhum momento corou quando insistentemente convidou para sua cama esse mesmo ’carinha’ e com ele enlouqueceu sobre ela.
A única coisa negativa que sentia em relação a isso eram os intervalos... Eles sim a torturavam.

Questionou-se sobre o quanto as pessoas realmente a conheciam... Ou o quanto ela se conhecia.
Questionou-se sobre em que exato momento ela deixou de ser, sem que ninguém percebesse,  a ‘Marcela direita merecedora de amor’ para ser a ‘mulherada fácil que só serve para comer’.

Pensou no paradoxo...
Seu desejo deveria existir apenas para que ela pudesse resistir a ele...
Seu desejo deveria existir apenas para ela dissimulá-lo...
E isso determinaria quem ela era...
A prova de fogo que a tornaria uma mulher legal.
Pensou em si mesma puta e fácil...
Pensou no seu corpo suado debaixo e sobre o corpo daquele cara...  
Pensou nela de quatro...
Pensou nas coisas que disse, que fez, que sentiu...
Pensou nas vezes que extrapolou os limites da auto-preservação e se fodeu depois... Mas não sem foder muito antes.


Depois pensou nela sentada em seu sofá esperando um convite, porque mulher direita não convida.
Depois pensou nela não cobrando mais uma noite, porque mulher direita se resigna quando o cara parece não querer mais.
E pensou nela dizendo ‘não’, porque aquilo mulheres bacanas não faziam.
E pensou em uma longa espera por um cara que a quisesse porque ela era uma mulher pra se querer... E o quanto ela deveria ser grata a ele por tê-la reconhecido e finalmente o quanto ela poderia enfim entregar seu corpo como forma de apreço... Afinal, por tanta consideração com ela, ele mereceria gozar.

E teve vergonha... Vergonha de acharem que ela era uma moça direita.



Nota:
É só um conto... Sem intenção de ganhar ponto.

2 comentários:

Anônimo disse...

Arrasou! FALOU E DISSE
Sensacional esse texto nú e crú
Ele é vibrante... Para ser lido em voz alta
O "Experiência Religiosa" é de quem está apaixonada este... É de quem está viva!
VIVA TU IRMÃ

Daniela disse...

É preciso ser parte minha para me entender?
Viva NÓS que estamos VIVAS!