E aí ele disse:
“Estar contigo é nadar em águas calmas... Pisar em solo plano”.
Ela sentiu que aquilo deveria ser um elogio, já que havia certa ternura em sua voz... Já que a declaração seguiu-se de um afago doce, quase fraternal...
Águas calmas.
Solo plano.
Ela queria ser montanha russa, Paris Dakar...
Ela queria subidas e descidas, frio na barriga, queda livre...
Solo plano e águas calmas: Isso parece matéria prima de vaso de barro... Enfeite na estante, imóvel sobre o móvel, cumprindo um dos papéis mais primitivos da mulher: Esperar.
Esperar que ele volte da caça.
Esperar que ele a queira.
Esperar sua cria.
Esperar
Esperar
Esperar
Em 2008 esperar:
Que ele volte da caça?
Que ele a queira?
Que ele continue querendo caminhar em círculos nesse terreno limitado.
Banhar-se nessas águas previsíveis.
Ela continua esperando:
Que o papo cale,
Que a cerveja acabe,
Que a TV desligue,
Que a promessa se pague:
Ser prioridade.
Ser mármore, não barro;
Estátua nua, carne de Vênus De Millus;
Obra de arte e não enfeite, adereço de decoração:
Um grotesco e inócuo jarro.
É tão tarde... Tarde demais.
Nada nunca será o mesmo.
O jarro quebrou.
Alguém mexeu no vaso empoeirado na estante...
E descuidado deixou cair.
Barro seco se espatifa no chão...
Os cacos são mais belo que o vaso em si...
Os cacos têm mais vida...
Os cacos têm uma história...
A história da queda:
Ela começa com o cambalear indeciso: Tombar ou atirar-se no abismo...
Enfim queda livre.
Choque do corpo no piso frio.
Sem amortecedores.
Carne em cacos.
Alma em cacos.
Se tivessem voz, os cacos ecoariam um tênue gemido de prazer por ser o que são: História de um vôo... Movimento e caos.
Crash seco.
Crash por dentro.
Crash.
Ele recolhe os cacos...
Em pedaços, ele ainda quer a peça:
Remendada.
Parada na estante.
Em uma prateleira mais alta...
... Para não acontecer de novo.
NOTA:
O texto é de 2008...
E é tudo, tudo que eu não quero sentir... Nunca mais.

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