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sexta-feira, 4 de abril de 2014

Sal


De todas as crises, de todos os sintomas, de todos os presságios de morte... Afinal era só depressão.
A dor e os fantasmas eram concretos: Tudo físico!
Culpa de uma substância que o organismo não liberava...

Seria feliz enfim... Uma única pílula por dia e a angústia se dissolveria como mágica...

O médico lhe entregou a receita médica. Ela a dobrou, colocou na bolsa, agradeceu e partiu.

Decidiu não ir para casa...
Caminhou em direção à praia... Queria olhá-la pela última vez com lágrimas nos olhos...
Amanhã não choraria mais...

Sentou-se na areia e deixou sua mente afogar-se em pensamentos... Verbalizou alguns... Anotou outros...

O que seria dela se as palavras não a socorressem durante todo esse tempo em que não tinha a receita da felicidade encapsulada em sua bolsa?

E agora? O que seria dela sem sua dor?

Teve medo.

Sua dor era toda sua intensidade... Das jóias, a mais preciosa... Matéria prima de sua arte...
Sua dor era bela... Sincera... Eloqüente... Essencial.

Pensou se seria estupidez preferir colher a miséria sem agrotóxicos de sua própria alma a saborear a vida com corantes e artificialmente aromatizada...

O que sentiria agora ao ler o jornal?
Nenhuma revolta ou indignação?

O que sentiria diante das vidas ceifadas?
Nenhum pesar?

O que sentiria ao lembrar de seus sonhos de amor?
Nenhuma mágoa? Nenhum rancor?

Seria fácil, boba, frágil... Sua força estava na dor...

Não quis.
Abriu mão de um largo sorriso sintético...
E preferiu aquele que tinha no canto da boca por lembrar-se que era filha de Iemanjá...

Levantou-se, tirou os sapatos, deu mais alguns passos, molhou seus pés, benzeu-se com a água salgada, pediu proteção...
Abriu a bolsa, retirou a receita médica, esperou a onda estourar, entregou o papel e saiu sem dar as costas para o mar.
Viu a folha branca ser levada.

Deu a sua mãe a alforria que a libertaria do pranto...
E mãe d’água emprestou-lhe o mar:
Para levar dentro de si toda sua imensidão...
Para vazar-lhe na face quando fosse chorar.

 
NOTA:
Aprisionei dentro de mim as lembranças que me tiram o sono.
Ainda preciso delas.
Penso em cada beijo... Cada toque... Cada sorriso... Tudo que foi e não é mais.

“Qualquer coisa que se sinta”... Não sei viver anestesiada...
Já estive lá... É quase morte.

Mas se eu puder escolher, meu Deus, substitui essa dor por sorriso... Por alegria... Gozo e felicidade!
Também já estive lá... E é indescritível... Mas breve como um transe!

Saudades.

2 comentários:

Mãe disse...

Não posso tirar de você a escolha.
Só peço que como remédio... a superdosagem mata...não morra...não é a ordem natural das coisas .Beijos

Daniela disse...

Mãe...
Não existe a ordem natural das coisas...
Se alguma coisa realmente tivesse ordem ou lógica eu estaria celebrando uma nova e feliz fase da minha vida...
Mas não pretendo morrer...
Te amo!