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segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Linguagem de Sinais



Patrícia não entende nada de sinais.

Nunca soube!

Embora ela seja tão, tão fácil de se ler, não consegue interpretar pessoas... Na verdade, especificamente falando, o que acontece é que alguns estados emocionais a confundem demais... Afetam seu raciocínio lógico.

Hoje ela está tão cansada. Cansada de querer as coisas que não a querem... As pessoas que não a querem.

Ela queria querer a sua vida como ela é... Ela queria não querer Diego.

Não conseguia ler Diego.

Seria capaz de amá-lo se ele deixasse... Mas ele não acreditava nisso... E ela intuía que ele não acreditava nisso com ela.

Patrícia não entende nada de sinais.

Ela confunde as coisas... Potencializa qualquer carinho, qualquer atenção que recebe dele.

Dia desses, contou a um amigo com um sorriso e encantamento, como se esperasse a confirmação de uma sensação boa dentro dela:

- Ele cantou e tocou para mim...

E ouviu de pronto:

- Isso não quer dizer nada! Ele queria te comer, Patrícia!

Pensou derrotada que ele já havia comido... Com muito menos esforço. Não era isso!

- Ou ele gosta de cantar e tocar! Acorda menina!

Ah! É... Gosta mesmo - Lembrou.

Mas Patrícia só escuta o que pode transformar encontros físicos e esporádicos em algo maior e mais bonito... Porque no fundo Patrícia é maior e mais bonita do que a forma que Diego a vê... Ou da forma que ela se apresenta.

Patrícia às vezes desconfia que ela não é uma pessoa adequada...

Que ela sente demais. Que ela espera demais. Que ela se comporta mal e que isso faz dela uma mulher passageira na vida de Diego... De todos os Diegos.

Ela não quer ser diferente.

Ela quer ser amada assim.

Inteira.

Com seu fogo... Ou exatamente por causa dele, por que não?

Lembrou-se da adolescência e do primeiro homem que tocou seu seio. Um menino de 19 anos... Três a mais que ela.

Seu nome era Marco.

Enquanto a beijava, colocou sua mão por dentro de sua camiseta.

Ela quase desmaiou com a sensação.

Ele, percebendo a nítida alteração em Patrícia perguntou se deveria parar.

Ela sabia que a resposta que ele esperava era sim. Por mais que ele quisesse tocar seu seio, o ‘pare’ era a resposta certa... Afinal, ela era tão quieta, tão doce, tão correta. Resistência era o esperado.

‘Pare’ era a resposta que validaria Patrícia... Mas ela escolheu ‘Não... Eu quero que continue’.

E dizendo não a tudo que se espera de uma moça adequada, ela disse sim ao seu corpo, àquelas sensações e à maneira que ela se sentia.

Voltou a pensar em Diego. Será que ele esperava que ela resistisse a ele? Para ela isso não fazia sentido. Não tinha mais 16 anos.

Mandou uma mensagem pra ele: Vem.

Não dava pra ir.

Chorou... Pensou em escrever tantas coisas, mas desistiu.


A negativa era para ela um 'ponha-se em seu lugar'.

Repassou todos os textos... Todos os sinais...

Vários diziam pra ela parar.

Mas Patrícia não entende nada de sinais.

Resignifica cada um deles para poder estar com ele mais uma, duas, três vezes sem que isso a machuque no final. 


Ela tem tanto medo.

Porque cada vez que eles se despedem, Patrícia sofre por não haver uma só promessa... Um dia para esperar.

Patrícia oscilava de sujeito para agente da passiva em uma velocidade incompreensível... Por razões das quais ela tinha total entendimento, mas nenhum controle.

Sabia que não era vítima, mas se vitimava.

Sabia que não tinha culpa, mas se culpava.

Sabia que tinha caminhos, muitos caminhos para seguir, mas nenhum deles parecia tão certo quanto os que levavam até a porta de Diego.

Gostava do jeito, da pele, do sorriso, do sexo, da confusão que era Diego, porque essa parecia muito com sua própria confusão...

Patrícia sempre confundia tudo.

Se eu conhecesse a Patrícia, eu diria pra ela não esperar... Que os sinais dizem que ela não significa para Diego mais que uma boa transa e que ele vai sair da sua vida assim que alguém mais... mais... ou menos aparecer.

Diria que deveria conhecer pessoas novas porque o novo se impõe para ela.

Diria também que não se preocupe em revisar os acontecimentos. Que não há nada de errado com ela, nem com ele. A vida é só acaso e descaso.

Mas Patrícia não me escutaria. Ela não entende nada de sinais.

Eu também não.



NOTA:
Se eu conhecesse Diego... Eu diria a ele:
Diego, ela gosta tanto de você... Ela te quer tão bem...
Você sabe? Você sente? Por que não? 
Conta pra mim! Quem sabe eu entenda alguma coisa...
Quem sabe eu aprenda a linguagem dos sinais!
Eu não sou tão boba quanto a Patrícia.

Não mesmo?

6 comentários:

Anônimo disse...

É. . Realmente os sinais são as coisas mais difíceis de se compreender. . Será porque a gente "traduz" como nos convem????
Puxa... q confusão não?
Bju amiga <3

Daniela disse...

A minha inteligência sussurra a verdade... E meu coração grita o que eu preciso escutar!
É isso.

Livia disse...

Meu Deus!!! A Patrícia poderia se chamar Livia...rsrs...como sempre perfeita nas palavras.

Daniela disse...

Ou Daniela...

Janete disse...

Os sinais que teimamos em.ignorar
..que teimam em se mostrar... escancarados nesse conto!
Adorei.. precisei ler em voz alta pra perceber a intensidade...lindo!

Daniela disse...

Ah Janete...
Eu leio alto...
Entendo os sinais...
Mas rezo para estar enganada...
Meu bem querer é tanto...
Igual ao de Patrícia no conto.